Ilustração histórica representando a proclamação da República Rio-Grandense em 1836
Datas e Acontecimentos

República Rio-Grandense: Há 190 Anos, a Revolta que Durou 9 Anos

11/09/2026 1 views 6 min de leitura

O contexto da Guerra dos Farrapos

Ilustração histórica representando a proclamação da República Rio-Grandense em 1836
Há 190 anos, em 11 de setembro de 1836, nascia a República Rio-Grandense — um Estado que existiu de fato, com bandeira, capital, presidente e moeda própria, dentro do território que hoje é o Rio Grande do Sul. A proclamação não surgiu do nada: era o desdobramento de uma revolta que já se arrastava havia meses, a Guerra dos Farrapos, motivada principalmente por um problema bem concreto e pouco romântico — os altos impostos cobrados sobre o charque e o couro produzidos na província, que colocavam a produção gaúcha em desvantagem frente ao charque importado do Uruguai e da Argentina, taxado de forma mais branda pelo Império.

Esse detalhe importa porque desmonta um pouco o mito de que a Revolução Farroupilha nasceu como um movimento separatista “puro”: a insatisfação inicial era fiscal e econômica, ligada à forma como o governo central tratava a economia da província mais ao sul do Império. Só depois de meses de confronto armado, com vitórias militares acumuladas pelos rebeldes, é que a ideia de romper formalmente com o Rio de Janeiro ganhou força suficiente para virar proclamação.

A proclamação em Campo dos Meneses

A vitória que deu o empurrão final veio na Batalha do Seival, e foi logo depois dela que o general Antônio de Sousa Neto declarou a independência da província, lendo o texto da proclamação para as tropas de cavalaria reunidas em Campo dos Meneses: “Proclamamos a independência desta Província, a qual fica desligada das demais do Império e forma um Estado livre e independente, com o título de República Rio-Grandense.” No mesmo ato, a bandeira imperial foi substituída pela bandeira da nova república — nas cores verde, amarela e vermelha que, mais de um século e meio depois, ainda aparecem nos símbolos oficiais do Rio Grande do Sul.

É um detalhe e tanto: a bandeira de um Estado que deixou de existir formalmente em 1845 segue, até hoje, presente na identidade visual gaúcha — prova de como aquele período de nove anos de autonomia marcou a região de um jeito que sobreviveu muito além da existência política da própria república.

Bento Gonçalves, o presidente que assumiu ainda preso

Um dos detalhes mais curiosos da República Rio-Grandense é que seu primeiro presidente foi aclamado no cargo enquanto estava preso. Bento Gonçalves, líder farroupilha e uma das figuras centrais da revolta, foi escolhido para presidir a nova república em 6 de novembro de 1836 — quase dois meses depois da proclamação — mas nesse momento ele já havia sido capturado pelas tropas imperiais e mantido detido na Bahia. Só depois de fugir da prisão é que Bento Gonçalves voltou a assumir a liderança direta do movimento, reforçando um governo que, por boa parte de sua existência, funcionou mais como uma estrutura de guerra descentralizada do que como um Estado nos moldes tradicionais.

A confederação com a República Juliana e Garibaldi

A Revolução Farroupilha também rendeu um dos episódios mais conhecidos da presença de Giuseppe Garibaldi no Brasil. O revolucionário italiano, que décadas depois se tornaria uma figura central na unificação da Itália, lutou ao lado das forças farroupilhas e ajudou a proclamar, em 1839, a República Juliana, em Santa Catarina — um segundo Estado, de vida ainda mais curta, que chegou a se confederar com a Rio-Grandense. O general Davi Canabarro, que mais tarde liderou forças junto com Garibaldi, é outro nome central dessa fase da revolta, que chegou a se estender para fora dos limites do atual Rio Grande do Sul antes de recuar de volta ao território gaúcho.

Como a revolta terminou — o Tratado de Poncho Verde

A República Rio-Grandense durou exatamente nove anos, sendo dissolvida em 1º de março de 1845 pelo Tratado de Poncho Verde (também grafado como Ponche Verde), acordo de paz negociado entre farroupilhas e o Império. O tratado não foi uma rendição pura e simples: preservou parte das estruturas e leis criadas durante o período republicano e concedeu anistia aos revoltosos, em uma solução negociada que buscava reincorporar a província ao Império sem deixar um rastro de perseguição em massa aos que haviam pegado em armas contra o governo central.

Ainda assim, é importante lembrar o tamanho do que esses nove anos representaram: a Revolução Farroupilha é considerada a mais longa revolta da história do Brasil, e ao longo desse período a República Rio-Grandense chegou a ter seis capitais diferentes, deslocadas conforme o avanço e recuo das tropas em conflito — um indicativo de como o governo farroupilha funcionou, na prática, como uma estrutura móvel de guerra, mais do que como um Estado sedentário e estável.

O que restou da República Rio-Grandense

Passados 190 anos da proclamação em Campo dos Meneses, o que fica mais evidente é como aquele episódio segue vivo na identidade do Rio Grande do Sul — da bandeira aos costumes, passando pelo próprio calendário: 20 de setembro, data de início da revolta, é feriado estadual no Rio Grande do Sul até hoje, celebrado como a Semana Farroupilha. Já contei por aqui sobre os 204 anos da Independência do Brasil, e é interessante notar como, catorze anos depois daquele 7 de setembro de 1822, era a vez de uma província inteira tentar (e, no fim, não conseguir) trilhar seu próprio caminho de independência dentro do jovem Império brasileiro.

Perguntas frequentes sobre a República Rio-Grandense

Quando a República Rio-Grandense foi proclamada?

Em 11 de setembro de 1836, em Campo dos Meneses, pelo general Antônio de Sousa Neto, logo após a vitória farroupilha na Batalha do Seival.

Quanto tempo durou a República Rio-Grandense?

Nove anos. Ela foi dissolvida em 1º de março de 1845, com a assinatura do Tratado de Poncho Verde entre farroupilhas e o Império.

Quem foi o presidente da República Rio-Grandense?

Bento Gonçalves, aclamado presidente em 6 de novembro de 1836, ainda enquanto estava preso pelas tropas imperiais na Bahia.

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