O gato-mourisco, felino silencioso que atravessa savanas e florestas do México à Argentina, acaba de mudar de categoria na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Uma nova avaliação publicada em outubro de 2026 tirou a espécie da classificação “pouco preocupante” e a colocou em “quase ameaçada”, sinal de que esse pequeno predador é bem mais raro do que a ciência supunha até pouco tempo atrás.

Um felino que passa despercebido
Cientificamente chamado Herpailurus yagouaroundi, o gato-mourisco (também conhecido como jaguarundi) pesa pouco mais de 7 quilos quando adulto, um porte modesto se comparado a outros felinos da América. Sua distribuição geográfica é enorme: ocupa o Cerrado e a Caatinga brasileiros como habitats essenciais, além de áreas do México, da América Central, do sul do Brasil e da Argentina. A Amazônia, no entanto, já não é considerada um refúgio seguro para a espécie, segundo a nova avaliação.
A reclassificação foi conduzida por Tadeu de Oliveira, copresidente do Grupo de Especialistas em Felinos da IUCN, com a bióloga Mariam Weston-Flores como coautora. “O felino realmente não é abundante em lugar nenhum”, resume Oliveira. A frase chama atenção porque contradiz a percepção comum sobre o animal: como é diurno, costuma aparecer em áreas abertas e até ocupa paisagens já degradadas pelo homem, muita gente assume que o gato-mourisco está bem numeroso. Weston-Flores explica o motivo desse engano: “é uma espécie muito oportunista”, capaz de se adaptar a ambientes alterados sem que isso signifique populações saudáveis por trás dessa presença visível. Os detalhes da reclassificação foram reunidos em reportagem da Mongabay Brasil, que ouviu diretamente os pesquisadores responsáveis pela avaliação.
Um número que impressiona pela escassez
A estimativa atual é de cerca de 13 mil indivíduos adultos em toda a área de distribuição global da espécie, total baixo para um animal presente em tantos países. Em boa parte dessas regiões, o gato-mourisco está entre os felídeos menos abundantes, com poucas exceções em localidades específicas do México e do Brasil. Machos da espécie podem precisar de até 100 km² de território para sobreviver, o que ajuda a explicar por que populações inteiras entram em declínio quando o habitat se fragmenta.
No Brasil, a situação já havia sido sinalizada antes: uma avaliação nacional conduzida por Flávia Tirelli havia classificado o gato-mourisco como “vulnerável”, categoria ainda mais grave do que a nova classificação global de “quase ameaçado”. São avaliações diferentes, uma nacional e outra mundial, mas que apontam na mesma direção de alerta. “Eu espero que isso incentive mais estudos direcionados”, afirma Tirelli, destacando um problema que atravessa toda a pesquisa sobre a espécie.
Pouca pesquisa, muitas ameaças
Esse problema de pesquisa é central para entender por que a reclassificação demorou a acontecer. Existem poucos estudos de campo dedicados especificamente ao gato-mourisco e poucos recursos disponíveis para financiar esse tipo de trabalho. Boa parte dos dados usados pelos cientistas vem de registros incidentais: imagens capturadas por armadilhas fotográficas instaladas originalmente para monitorar outras espécies, não o jaguarundi em si.
Enquanto a pesquisa dedicada segue escassa, as ameaças diretas se acumulam. A avaliação da IUCN lista conflitos com agricultores e criadores de galinhas como um dos principais riscos: como o gato-mourisco ataca aves domésticas em busca de alimento, acaba sendo abatido em retaliação. Atropelamentos em estradas também cobram sua parte, assim como doenças como raiva e sarna, transmitidas por cães domésticos e cães ferais que compartilham o mesmo território. Ataques diretos de cães completam o quadro de pressões que o animal enfrenta diariamente, mesmo em áreas que ainda preservam parte da vegetação original.
O que a avaliação recomenda
Os autores da reclassificação não se limitaram a descrever o problema. Entre as recomendações estão a conservação dos habitats essenciais já identificados e o reforço da conectividade entre fragmentos florestais, de forma que populações isoladas possam voltar a se cruzar geneticamente. Soluções práticas também aparecem na lista: galinheiros reforçados contra predadores, para reduzir o conflito com produtores rurais, e passagens subterrâneas sob estradas, pensadas especificamente para diminuir os atropelamentos.
Campanhas de vacinação de cães domésticos e ferais nas regiões onde o gato-mourisco ainda ocorre também entram no pacote de medidas, já que doenças transmitidas por esses animais figuram entre as causas de morte mais citadas na avaliação. Por fim, os especialistas pedem monitoramento permanente e direcionado à espécie, porque a tendência observada em algumas populações é de declínio contínuo, o que poderia levar o gato-mourisco à categoria de “vulnerável” em uma próxima reavaliação global, caso nada mude.
A notícia chega poucas semanas depois de outro episódio envolvendo felinos silvestres brasileiros: a descrição do Leopardus tilcayo, novo gato selvagem identificado na Bolívia, mostrou como ainda existe muito a descobrir sobre essa família de animais na América do Sul. No caso do gato-mourisco, o desafio é o oposto: a espécie já é conhecida há décadas, mas só agora a ciência está entendendo o tamanho real da sua fragilidade.
Perguntas frequentes
O gato-mourisco está em risco de extinção?
Ainda não na categoria mais grave. A nova classificação da IUCN é “quase ameaçado”, um nível abaixo de “vulnerável” e “em perigo”. No Brasil, porém, uma avaliação nacional já havia classificado a espécie como vulnerável, o que indica maior preocupação em território brasileiro do que na média global.
Onde o gato-mourisco pode ser encontrado?
Sua distribuição vai do México ao sul do Brasil e à Argentina, passando pela América Central. No território brasileiro, o Cerrado e a Caatinga são apontados como habitats essenciais pela avaliação da IUCN, enquanto a Amazônia já não é considerada um refúgio seguro para a espécie.
Por que o gato-mourisco é confundido com um animal comum?
Porque, diferente de outros felinos silvestres, ele tem hábitos diurnos, circula por áreas abertas e consegue ocupar paisagens já alteradas pela presença humana. Essa visibilidade cria a falsa impressão de abundância, quando na prática a população mundial soma apenas cerca de 13 mil indivíduos adultos.

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