
Orkut pode voltar, mas não exatamente do jeito que a nostalgia brasileira imaginava. Na quinta-feira, dia 8 de outubro, o site oficial da antiga rede social encerrou uma contagem regressiva que já rodava havia alguns dias e, no lugar de um botão de login, mostrou aos visitantes uma petição online e uma carta assinada por Orkut Büyükkökten, o engenheiro turco-americano que criou a plataforma em 2004. Não se trata da reativação do site original, extinto pelo Google em setembro de 2014, e sim do anúncio público de um novo projeto, ainda sem nome e sem data de lançamento.
Uma contagem regressiva que terminou em petição
O relógio do site oficial chamou atenção de quem acompanhava redes sociais e fóruns de tecnologia nos últimos dias, repetindo um gesto que a própria equipe de Büyükkökten já havia usado em 2022, quando o domínio foi atualizado pela primeira vez depois de quase cinco anos fora do ar. Dessa vez, ao zerar, a contagem não levou a um cadastro imediato nem a qualquer demonstração da plataforma. Levou a um formulário que pede dados de quem tem interesse em participar do projeto, sem prometer uma vaga garantida e sem indicar quando a rede deve sair do papel. Segundo o próprio site, mais de 70% das assinaturas recebidas até agora vêm do Brasil, um indício de que o país segue sendo o centro gravitacional de qualquer conversa sobre o Orkut, mesmo doze anos depois do encerramento oficial. O Tecnoblog acompanhou o lançamento da petição e reuniu os principais pontos da carta publicada pelo criador da rede.
O que diz a carta do criador
No texto divulgado junto com a petição, Büyükkökten faz um balanço crítico do formato que domina as redes sociais hoje em dia. Ele questiona o modelo de feeds organizados por algoritmos voltados a maximizar o tempo de tela e o engajamento, e levanta dúvidas sobre o papel crescente de inteligência artificial e de bots na forma como as pessoas se conectam online. Em contraposição a esse cenário, defende uma experiência construída em torno de pessoas reais e de comunidades, recuperando parte do espírito que, segundo ele, caracterizava a internet do início dos anos 2000.
Da lan house ao silêncio de uma década
Para quem não viveu aquele período, vale situar o tamanho do fenômeno. O Orkut nasceu em 2004 como um projeto pessoal de Büyükkökten dentro do Google e rapidamente se tornou sinônimo de rede social no Brasil, muito antes de o Facebook ganhar o mesmo espaço por aqui. Comunidades com nomes inusitados, depoimentos públicos trocados entre amigos e um sistema de fotos que definia boa parte da identidade digital de uma geração inteira passaram pela plataforma, quase sempre acessada em lan houses e cibercafés que se multiplicavam pelas cidades brasileiras. O declínio começou quando outras redes passaram a oferecer experiências mais rápidas e recursos que o Orkut demorou a incorporar, até que o Google decidiu encerrar o serviço em setembro de 2014. A forma como os algoritmos passaram a moldar o consumo de informação desde então é um tema que já tratei por aqui ao analisar como os resumos de inteligência artificial do Google vêm reduzindo o tráfego da Wikipédia, outro caso de uma ferramenta automatizada redesenhando hábitos que pareciam consolidados na internet.
Um projeto que já vinha sendo preparado havia anos
O anúncio desta semana não surgiu do nada. Büyükkökten já havia testado uma primeira tentativa de retomada chamada Hello, um aplicativo lançado como projeto piloto e encerrado em 2022. Em uma entrevista concedida em agosto de 2024, durante sua passagem pelo Rio Innovation Week, ele chegou a afirmar que a equipe decidira encerrar o Hello para relançar, no futuro, uma plataforma que reunisse o que havia funcionado bem naquela experiência. Na mesma conversa, disse que ainda não tinha nome nem data para anunciar, mas que o trabalho avançava de forma consistente, e observou que a nostalgia pelo Orkut continuava viva entre quem usou a rede na época de seu auge. Passados pouco mais de dois anos daquela entrevista, a petição publicada agora parece ser o primeiro passo público de todo esse trabalho interno.
Por que o Brasil concentra o interesse
O dado de que mais de sete em cada dez assinaturas da petição venham do Brasil não deveria surpreender quem acompanhou a trajetória da rede. Em nenhum outro país o Orkut alcançou um grau de identificação cultural comparável ao que teve por aqui, a ponto de o próprio nome da rede ter virado verbo e referência obrigatória para descrever a vida digital de uma década inteira. Esse tipo de vínculo emocional costuma se manter mesmo quando o produto original desaparece, e explica por que qualquer sinal de retorno, por mais vago que seja, ainda consegue mobilizar uma audiência tão específica. Resta saber se o novo projeto conseguirá transformar essa nostalgia em um produto capaz de competir com redes que hoje dominam o tempo de tela dos brasileiros.
Perguntas frequentes
O Orkut vai voltar exatamente como era antes?
Não. O site oficial deixou claro que não se trata de reativar a rede original, encerrada pelo Google em 2014. O anúncio se refere a um projeto novo, criado pelo mesmo fundador, sem qualquer compromisso de reproduzir o formato antigo de comunidades e depoimentos.
Quando a nova rede social de Orkut Büyükkökten deve ser lançada?
Ainda não há data confirmada. A petição recém-lançada serve apenas para registrar interesse e coletar dados de possíveis usuários, sem garantir vaga ou prazo de estreia. O próprio criador já havia dito em 2024 que o projeto avançava, mas sem nome nem data definidos até aquele momento.
Por que o Orkut foi tão popular no Brasil?
A rede chegou ao país em um momento de forte expansão do acesso à internet via lan houses e cibercafés, e se tornou o principal espaço de socialização digital de uma geração antes da chegada do Facebook. Comunidades temáticas e depoimentos públicos ajudaram a criar um vínculo cultural que se mantém vivo mais de uma década após o encerramento oficial da plataforma.

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