Ararinha-azul, papagaio azul brasileiro extinto na natureza desde 2019
Ciência

Ararinha-azul é alvo de disputa com zoológico indiano

13/10/2026 1 views 6 min de leitura

A ararinha-azul voltou ao centro de uma disputa internacional que envolve Brasil, Índia e acusações de tráfico de animais. Documentos obtidos pela Mongabay Brasil via Lei de Acesso à Informação mostram que o Vantara, zoológico privado indiano ligado à família Ambani, propôs ao governo brasileiro uma “parceria estratégica de conservação” para a espécie, extinta na natureza desde 2019.

Ararinha-azul, papagaio azul brasileiro extinto na natureza desde 2019
Photo by Dominik Lange on Unsplash

A proposta chegou ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) em duas cartas. A primeira, enviada em agosto de 2025, menciona de forma genérica “outras espécies brasileiras” sem nomeá-las. A segunda, de outubro do mesmo ano, é mais específica: propõe um “marco de cooperação” dedicado à ararinha-azul, com pesquisa conjunta, apoio veterinário e infraestrutura de reabilitação. Pelo modelo descrito, o Vantara cuidaria da reprodução das aves em território indiano, que depois seriam devolvidas ao Brasil sob supervisão compartilhada.

Hoje restam cerca de 300 indivíduos da espécie, todos em centros de reprodução em cativeiro. Nenhum vive solto na natureza. A ararinha-azul já havia sido alvo de outra movimentação do Vantara em 2023, quando o zoológico recebeu 26 aves transferidas pela ACTP, organização alemã, sem o consentimento formal do Brasil. O episódio gerou atrito diplomático que ainda não se resolveu por completo.

O Vantara, inaugurado em março de 2025 em Gujarat por Anant Ambani, filho do magnata Mukesh Ambani, enfrenta acusações recorrentes de tráfico de animais. Uma investigação da Suprema Corte indiana não encontrou irregularidades formais, mas a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (Cites) identificou discrepâncias nos registros do zoológico e recomendou a suspensão de suas licenças de importação. A recomendação foi rejeitada em votação em novembro de 2025, com votos decisivos de Brasil, Japão e Estados Unidos. Em agosto de 2026, o próprio Vantara anunciou um embargo voluntário de doze meses para novas importações de animais, válido desde junho, sem reconhecer qualquer irregularidade.

O que o governo brasileiro diz

Diante da nova proposta, o ICMBio foi categórico ao afirmar que “qualquer acordo que venha a ser firmado será entre os governos do Brasil e da Índia”, ou seja, nunca diretamente com o zoológico privado. A embaixada indiana, por sua vez, descreveu as negociações como um contato entre “uma entidade privada” e o governo brasileiro, numa tentativa de distanciar formalmente o Estado indiano do caso. O Vantara não respondeu às perguntas enviadas pela Mongabay sobre o estágio atual das tratativas.

Em dezembro de 2025, o ICMBio já havia pedido que o Vantara aderisse formalmente ao programa nacional de manejo da ararinha-azul, em vez de conduzir negociações paralelas. Em março de 2026, o zoológico enviou um relatório sobre a situação das aves sob sua guarda. Uma visita de autoridades brasileiras ao complexo indiano, marcada para o mesmo mês, foi cancelada poucos dias antes, sem explicação oficial. O episódio ilustra a desconfiança que ainda marca a relação entre as partes.

Outras espécies na mira

A primeira carta do Vantara, a de agosto de 2025, não cita espécies por nome, mas documentos anexados à reportagem da Mongabay mostram imagens de outros animais brasileiros ameaçados que podem entrar numa eventual parceria futura: o mico-leão-de-cara-dourada, o mico-leão-dourado, o macaco-prego-dourado e a arara-azul-de-Lear. Para especialistas em conservação, a lista amplia o alcance da preocupação, já que a ararinha-azul deixou de ser um caso isolado e passou a representar um padrão de interesse do zoológico indiano por primatas e aves brasileiras em risco de extinção.

O contexto recente não ajuda a dissipar as dúvidas. Em maio de 2026, a Polícia Federal apreendeu equipamentos de Tony Silva, especialista em aves com ligações ao Vantara, numa investigação sobre tráfico de micos-leões-dourados. O zoológico negou qualquer irregularidade envolvendo o episódio. Meses antes, em novembro de 2025, um surto de circovírus obrigou a recaptura de ararinhas que haviam sido reintroduzidas na Caatinga, reforçando como a reintrodução da espécie na natureza continua sendo um processo frágil e sujeito a reveses sanitários.

A visão de quem acompanha o caso

Juliana Machado Ferreira, da organização Freeland Brasil, resumiu a cautela que domina o debate: “Devemos tomar cuidado para garantir que isso não se torne uma forma de facilitar o envio de animais para o Vantara”. Para ela, o Brasil já tem capacidade técnica para conduzir o programa de conservação da ararinha-azul de forma independente, sem depender de uma parceria com um zoológico estrangeiro sob investigação internacional. É o mesmo tipo de capacidade técnica nacional que já sustenta o programa de vacinação do mico-leão-dourado contra febre amarela, outra das espécies brasileiras ameaçadas que aparecem nas imagens anexadas à proposta do Vantara.

A espécie carrega um peso simbólico que ultrapassa a biologia. Popularizada mundialmente pela animação “Rio”, a ararinha-azul é hoje um símbolo da fragilidade da fauna brasileira diante da perda de habitat, do tráfico de animais e, agora, de disputas geopolíticas sobre quem tem o direito de cuidar de uma espécie que só sobrevive em cativeiro. O desfecho dessa negociação, que ainda não tem data definida para ser formalizada ou encerrada, deve moldar o modelo de cooperação internacional que o Brasil aceitará para outras espécies ameaçadas nos próximos anos.

Perguntas frequentes

A ararinha-azul está extinta?

A espécie está extinta na natureza desde 2019. Cerca de 300 indivíduos sobrevivem em centros de reprodução em cativeiro no Brasil e no exterior, incluindo um lote de 41 aves soltas na Caatinga em projetos de reintrodução que seguem monitorados.

O que é o Vantara?

É um zoológico privado inaugurado em março de 2025 em Gujarat, na Índia, criado por Anant Ambani, filho do magnata Mukesh Ambani. O complexo já recebeu acusações internacionais de tráfico de animais e teve licenças de importação questionadas pela Cites.

Algum acordo já foi assinado entre Brasil e o zoológico indiano?

Não. O ICMBio afirma que qualquer acordo só pode ser firmado entre os governos do Brasil e da Índia, nunca diretamente com uma entidade privada. As negociações descritas pela Mongabay Brasil ainda estão em estágio de cartas e propostas, sem marco de cooperação assinado.

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