Rio amazônico com sedimentos revolvidos por garimpo ilegal, ilustrando a contaminação por mercúrio na Amazônia
Ciência

Mercúrio na Amazônia Ameaça 951 Comunidades, Aponta Novo Estudo

14/09/2026 4 views 6 min de leitura

O mercúrio na Amazônia deixou de ser um problema pontual de garimpo para se tornar uma ameaça sanitária que atinge quase mil comunidades espalhadas por três países. Um estudo publicado nas últimas semanas, conduzido pelo Centro de Inovação Científica Amazônica (Cincia), ligado à Universidade Wake Forest, e divulgado em reportagem da Mongabay Latam, cruzou quase três décadas de pesquisas científicas para chegar a um retrato alarmante: 951 comunidades no Peru, na Bolívia e no Brasil estão contaminadas ou em risco direto de contaminação por mercúrio proveniente do garimpo ilegal de ouro.

Acompanhei os detalhes dessa análise porque ela reúne, pela primeira vez, dados de bacias hidrográficas que atravessam fronteiras — os rios Madre de Dios, no Peru, Beni, na Bolívia, e Madeira, no Brasil — mostrando que a contaminação não respeita limites nacionais. Ao todo, mais de 130 cientistas contribuíram para a revisão de 39 estudos publicados entre 1997 e 2024, processando 7.725 amostras de mercúrio em pessoas e 5.939 amostras de tecido de peixe ao longo de 2.763 quilômetros de rio.

Rio amazônico com sedimentos revolvidos por garimpo ilegal, ilustrando a contaminação por mercúrio na Amazônia

Números que preocupam: comunidades contaminadas e em risco

Do total de 951 comunidades mapeadas, 249 já têm contaminação comprovada por mercúrio, sendo que 88% delas registram níveis acima do limite estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), de 2 microgramas por grama de cabelo. Outras 702 comunidades foram classificadas como vulneráveis por estarem a menos de dois quilômetros dos rios afetados, o que as coloca em rota direta de exposição.

Os números variam bastante entre os três países, mas todos ultrapassam em muito o limite seguro. No rio Madre de Dios, no Peru, pesquisadores encontraram concentrações de até 44 microgramas por grama — 20 vezes acima do recomendado. No rio Beni, na Bolívia, o pico chega a 32 microgramas por grama, dez vezes o limite. Já no rio Madeira, em território brasileiro, o estudo registrou o valor mais alto de todos: até 150 microgramas por grama, ou 75 vezes o limite da OMS. Na comunidade de São Sebastião do Tapuru, no Brasil, a média chegou a 62,76 microgramas por grama, mais de 30 vezes o parâmetro considerado seguro.

Entre gestantes, os dados também chamam atenção: em Madre de Dios, 29% das mães testadas superaram os níveis seguros de mercúrio, enquanto na Bolívia a proporção chega a nove em cada dez mulheres em idade fértil. Entre crianças de 5 a 12 anos na mesma região peruana, 32,9% ultrapassaram o limite considerado seguro pela OMS.

Por que o mercúrio chega aos rios amazônicos

A origem do problema é conhecida, mas o estudo ajuda a dimensionar sua escala: o garimpo ilegal de ouro usa mercúrio líquido para separar o metal precioso dos sedimentos do leito dos rios. O excedente é despejado diretamente na água, contamina peixes por bioacumulação e, na sequência, chega às comunidades ribeirinhas que dependem do pescado como principal fonte de proteína.

O avanço da atividade garimpeira também tem custo florestal direto. Segundo o levantamento, a bacia do Madre de Dios perdeu mais de 95 mil hectares de floresta entre 1997 e 2024 por causa do garimpo, enquanto a bacia do Beni perdeu mais de 9 mil hectares e a do Madeira, mais de 28 mil hectares. Um fator que ajuda a explicar a intensificação recente da atividade é o preço do ouro, que em janeiro de 2026 ultrapassou US$ 5 mil por onça (cerca de 31 gramas), tornando o garimpo ainda mais atrativo financeiramente — inclusive em áreas protegidas e terras indígenas.

Os efeitos na saúde de adultos e crianças

Os efeitos da exposição ao mercúrio no organismo humano estão bem documentados pela ciência: perda de memória, dores de cabeça recorrentes, danos ao sistema nervoso central, problemas cardiovasculares e déficits cognitivos em crianças. Em gestantes, a substância atravessa a placenta e também pode ser transmitida por meio da amamentação, o que tem sido associado a crianças que nascem com deficiências motoras e doenças cardíacas congênitas.

Um trecho da reportagem que me marcou foi a fala de Eusebio Ríos Iviche, vice-presidente da Federação Nativa do Rio Madre de Dios, que descreveu a situação como “um genocídio silencioso contra povos indígenas” — uma forma de chamar atenção para o fato de que a contaminação avança de maneira invisível, sem os sintomas agudos de uma doença infecciosa, mas com consequências que se acumulam ao longo de gerações.

Peixes contaminados e o impacto ambiental

Além do efeito direto sobre a saúde humana, o estudo identificou contaminação em pelo menos 19 espécies de peixes no Brasil, 15 na Bolívia e 2 no Peru — incluindo espécies predadoras no topo da cadeia alimentar, onde o mercúrio se concentra em níveis ainda mais altos por biomagnificação. Isso tem efeito direto sobre a segurança alimentar de populações ribeirinhas e indígenas que dependem da pesca de subsistência.

Esse tipo de ameaça ambiental na Amazônia não é isolado. Recentemente escrevi sobre outro estudo que mapeia áreas prioritárias para proteger o mico-leão-dourado contra a febre amarela, e os dois casos mostram um padrão parecido: pesquisas cada vez mais detalhadas estão expondo riscos à saúde e à biodiversidade da região que antes eram difíceis de quantificar com precisão.

O que diz a Convenção de Minamata

Os três países citados no estudo já são signatários da Convenção de Minamata sobre Mercúrio, tratado internacional assinado em outubro de 2013 e em vigor desde agosto de 2017, que busca reduzir o uso e a emissão dessa substância em atividades como a mineração artesanal de ouro. O Peru aderiu ainda em 2013, o Brasil ratificou o acordo em 2017 e a Bolívia é signatária há mais de dez anos. Apesar disso, o novo levantamento mostra que a aplicação prática do tratado ainda está longe de conter o avanço da contaminação nas três bacias analisadas.

Perguntas frequentes

O que causa a contaminação por mercúrio na Amazônia?
A principal causa é o garimpo ilegal de ouro, que usa mercúrio líquido para separar o metal dos sedimentos dos rios. O excedente é descartado na água, contamina os peixes e chega às comunidades que dependem da pesca.

Quais rios e países foram analisados no estudo?
O levantamento do Cincia/Wake Forest, divulgado pela Mongabay Latam, analisou os rios Madre de Dios (Peru), Beni (Bolívia) e Madeira (Brasil), cobrindo 2.763 quilômetros de extensão e 951 comunidades.

Quais são os principais efeitos do mercúrio na saúde?
Entre os efeitos documentados estão perda de memória, dores de cabeça, danos ao sistema nervoso central, problemas cardiovasculares e déficits cognitivos em crianças, além de risco de deficiências motoras e cardíacas em bebês expostos durante a gestação.

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