Ilustração científica realista da Terra vista do espaço, com destaque sutil para os polos ligeiramente mais elevados e u…
Ciência

Formato da Terra Está Mudando: Cientistas Revelam a Causa

27/09/2026 4 views 7 min de leitura

O formato da Terra está mudando, e a causa está bem debaixo dos nossos pés — ou melhor, nos polos do planeta. Um estudo publicado no Journal of Geophysical Research: Solid Earth mostrou que, desde o fim dos anos 1990, o planeta vem se tornando ligeiramente mais arredondado: os polos estão subindo enquanto a região equatorial afunda, um movimento inverso ao que a Terra apresentou durante boa parte do século XX. Acompanho esse tipo de descoberta com atenção porque ela mistura duas coisas que raramente aparecem juntas em uma mesma notícia: geodesia de precisão e a crise climática que já sentimos no dia a dia.

Ilustração da Terra vista do espaço mostrando o degelo nos polos que altera o formato do planeta

Um planeta que nunca foi uma esfera perfeita

A Terra nunca foi uma bola redonda de verdade. Por causa da rotação, o planeta é levemente achatado nos polos e mais largo no equador — um formato que os geodesistas chamam de elipsoide de revolução. Esse achatamento não é fixo: ele varia de acordo com para onde a massa do planeta se desloca ao longo do tempo, seja por movimentos internos do manto, seja pela redistribuição de água e gelo na superfície.

É exatamente essa segunda variável que chamou a atenção do pesquisador C. Kotsakis, do Departamento de Geodesia e Topografia da Universidade Aristóteles de Tessalônica, na Grécia. Usando décadas de dados coletados por redes de estações GNSS — o mesmo tipo de sistema de posicionamento por satélite usado no GPS dos celulares, mas com precisão milimétrica — a equipe conseguiu medir como a forma do planeta mudou ano a ano desde a década de 1990, como detalhou o Gizmodo Brasil ao noticiar a pesquisa.

O que os satélites de GPS revelaram

Os números contam uma história clara de aceleração. Entre 1997 e 2000, os polos se elevavam a um ritmo de cerca de 0,5 milímetro por ano em relação ao centro da Terra. Entre 2011 e 2015, esse ritmo já tinha dobrado, para aproximadamente 1 milímetro por ano — uma aceleração estimada em 0,4 milímetro por ano a cada década. Ao mesmo tempo, a linha do equador vem se contraindo a uma taxa de 0,8 a 1 milímetro por ano, o movimento espelhado que faz o planeta, como um todo, tender discretamente para um formato mais esférico.

Parece pouco — estamos falando de milímetros —, mas em geodesia essa é uma mudança enorme, mensurável com margem de erro mínima graças à densidade de estações GNSS espalhadas pelo globo hoje. Segundo o estudo, dois fenômenos físicos diferentes estão por trás desse movimento: o ajuste isostático glacial, um processo lento em que a crosta terrestre ainda está “relaxando” depois do peso das geleiras da última era do gelo ter desaparecido há milhares de anos, e a perda contemporânea de gelo na Groenlândia e na Antártida, que redistribui massa de forma muito mais rápida.

Os números por trás do degelo: 12,5 trilhões de toneladas

É nesse segundo fator que outro estudo, publicado na revista científica Scientific Data por pesquisadores como Eric Rignot (Universidade da Califórnia, Irvine), Ines Otosaka e Andrew Shepherd (Universidade de Northumbria, na Inglaterra), David Holland (Universidade de Nova York) e Ted Scambos (Universidade do Colorado), com dados da Agência Espacial Europeia e da NASA, se encaixa perfeitamente. O levantamento reúne o registro de satélites mais longo já compilado sobre o assunto — a Groenlândia é monitorada desde 1972, e a Antártida desde 1979 — e chega a um número impressionante: 12,5 trilhões de toneladas de gelo perdidas nesse período.

Boa parte dessa perda não vem do ar quente derretendo o gelo por cima, como se poderia imaginar. Cinco sextos do degelo têm origem em águas oceânicas mais quentes, que corroem as calotas polares por baixo e pelas laterais, acelerando o fluxo das geleiras até o oceano — a Geleira Jakobshavn, na Groenlândia, recua até 50 metros por dia. Na Antártida, o padrão é desigual: a porção Ocidental derrete rapidamente, enquanto a Oriental chega a compensar parte da perda com nevascas recordes.

Por que isso importa para o nível do mar

Toda essa água que deixa de estar presa em forma de gelo nos polos vai parar, majoritariamente, nos oceanos. Segundo o estudo publicado na Scientific Data, esse degelo já foi responsável por elevar o nível médio do mar em cerca de 3,1 centímetros desde 1979. Um dos pesquisadores citados no levantamento resume o impacto de forma direta: a cada um terço de polegada (pouco menos de 1 centímetro) de aumento no nível do mar, mais 2 a 3 milhões de pessoas passam a sofrer com inundações costeiras pelo menos uma vez por ano.

É esse mesmo desequilíbrio de água no planeta que ajuda a explicar por que outras regiões enfrentam o problema oposto. Enquanto o degelo empurra água para os oceanos, cidades no interior do Brasil convivem com crises de abastecimento hídrico severas — como mostrei ao cobrir o caso do data center de inteligência artificial em Paracatu (MG), onde o consumo de água para resfriamento de servidores pressiona uma cidade que já enfrenta escassez. São faces diferentes da mesma crise: a distribuição de água doce no planeta está mudando, com consequências tanto na escala global — no formato da Terra — quanto na escala local, na torneira de quem mora perto de um data center.

Do relaxamento da crosta ao futuro da medição do planeta

O ajuste isostático glacial é um fenômeno curioso por si só: regiões como a Escandinávia e partes do Canadá ainda estão, literalmente, subindo alguns milímetros por ano porque a crosta terrestre continua se reacomodando depois de ter sido pressionada por camadas de gelo com quilômetros de espessura durante a última era glacial, encerrada há cerca de 11 mil anos. É um processo geológico lento, mas que os cientistas já conseguiam calcular razoavelmente bem.

O que o estudo liderado por Kotsakis deixa claro é que esse processo natural e lento já não é mais o único fator relevante. A perda de gelo que estamos causando agora, na escala de poucas décadas, está se somando ao ajuste isostático glacial e, em alguns períodos recentes, chega a superá-lo em influência sobre o formato do planeta. Ou seja: a Terra está registrando, em sua própria geometria, a marca de um processo que os humanos aceleraram nos últimos cem anos. Para os pesquisadores, o próximo passo é refinar os modelos que separam a contribuição de cada fator — geleiras, oceano, manto terrestre — para prever com mais precisão como o planeta vai continuar mudando de forma nas próximas décadas.

O que é o achatamento da Terra?

É a diferença entre o raio da Terra medido no equador e o raio medido nos polos. Por causa da rotação do planeta, o raio equatorial é maior — a Terra é ligeiramente achatada nos polos, formando o que os geodesistas chamam de elipsoide de revolução, e não uma esfera perfeita.

O degelo dos polos é a única causa da mudança no formato da Terra?

Não. O estudo aponta dois fatores combinados: o ajuste isostático glacial, um processo lento de “relaxamento” da crosta terrestre após o fim da última era do gelo, e a perda contemporânea de gelo na Groenlândia e na Antártida, que tem se tornado cada vez mais relevante nas últimas décadas.

Quanto o nível do mar já subiu por causa do degelo polar?

Segundo o levantamento publicado na revista Scientific Data, que reúne mais de quatro décadas de dados de satélite, o degelo da Groenlândia e da Antártida já elevou o nível médio dos oceanos em cerca de 3,1 centímetros desde 1979.

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