Acompanho de perto como a corrida por infraestrutura de inteligência artificial vem se espalhando pelo interior do Brasil, e o caso do data center de Paracatu é um dos mais reveladores que já vi. Reportagem publicada pelo The Intercept Brasil em 10 de setembro de 2026, com apuração também da Mongabay, mostra que um projeto bilionário de data center de IA pegou de surpresa uma cidade mineira que já enfrenta escassez hídrica — e que a própria prefeitura soube da iniciativa pelos jornalistas, não pela empresa.
Paracatu, no noroeste de Minas Gerais, tem cerca de 100 mil habitantes e fica a três horas de carro de Brasília. É ali que a Atlas Renewable Energy, subsidiária da gigante de gestão de ativos BlackRock, planeja erguer um complexo de 1 gigawatt de capacidade — maior, sozinho, do que a soma de todos os data centers atualmente em operação no Brasil. O investimento previsto é de R$ 35 bilhões, distribuído em 13 edifícios com supercomputadores organizados em três módulos, com operação parcial prevista para dezembro de 2027 e conclusão total até 2030.
Uma cidade que já sofre com a água
O que torna o caso emblemático não é apenas a escala do projeto, mas o contexto em que ele pousa. Segundo a reportagem, o local proposto fica a 30 km da área urbana de Paracatu e a apenas 15 km da comunidade quilombola do Cercado, numa região que já concentra conflitos pelo uso da água. Enquanto cerca de 90% do território de Minas Gerais está livre de conflitos hídricos formais, em Paracatu essa margem de segurança cai para perto de 20% — o município é um dos que mais acumulam restrições ao uso de águas subterrâneas e superficiais em todo o estado, que soma 110 zonas de conflito hídrico declaradas desde 2006.
Uma moradora entrevistada resume o problema numa frase que ficou comigo: “Em Paracatu, tinha água” — no pretérito, como quem descreve algo que já não existe mais do mesmo jeito. Dois fatores históricos ajudam a explicar essa mudança. Primeiro, a mineração: a Kinross opera ali a mina Morro do Ouro, classificada como a operação de menor teor de minério do mundo (0,4 grama de ouro por tonelada processada), o que exige mover volumes descomunais de terra e água para cada grama extraído. Segundo, a agricultura irrigada, presente desde os anos 1970 e hoje espalhada por 86 mil hectares — o suficiente para que produtores rurais relatem a necessidade de poços de 5 metros de profundidade, contra apenas 1 metro exigido décadas atrás, sinal claro de rebaixamento do lençol freático.
O apagão de informação que pegou a prefeitura de surpresa
Segundo apurado pelas reportagens, a existência do projeto só veio à tona publicamente em maio de 2026, e mesmo assim de forma incompleta. Manoel Alves, presidente da Câmara Municipal de Paracatu, resumiu o desconforto da classe política local com uma pergunta dirigida a colegas: “Vocês também não estão sabendo nada sobre isso?”. O ex-prefeito Almir Paraca foi além, alertando publicamente que “há restrições tanto para as águas subterrâneas quanto para as superficiais” na região onde o empreendimento seria instalado.
Os números de consumo de água ajudam a entender a preocupação. No auge da operação, o complexo projetado pode consumir até 1,2 milhão de litros de água por dia — o equivalente, ao longo de um ano, a 438 milhões de litros, volume suficiente para abastecer toda a população de Paracatu por um mês inteiro. Procurada pelas reportagens, a Atlas Renewable Energy respondeu que o “projeto encontra-se em uma fase de estudos muito preliminares”, sem definições técnicas fechadas — resposta que, para boa parte da população local, soa mais a cautela institucional do que a garantia real de que o abastecimento da cidade será protegido.
Um retrato do que a IA está custando fora das telas
O episódio de Paracatu não é um caso isolado; é uma amostra concreta de um fenômeno que venho acompanhando há meses, sobre como o crescimento acelerado da inteligência artificial vem gerando efeitos colaterais fora das telas de computador. Já mostrei aqui, no texto sobre os resumos de IA do Google e a queda de acessos à Wikipédia, como a IA generativa está reconfigurando silenciosamente ecossistemas inteiros — ali, o tráfego de um dos maiores repositórios de conhecimento do mundo; aqui, os recursos hídricos de uma cidade que carrega, desde 2011, um parque estadual criado justamente como compensação ambiental pelos danos da mineração.
O que me chama atenção é a velocidade com que decisões desse porte avançam antes que a sociedade local tenha tempo de reagir. Um complexo de 1 gigawatt, maior que toda a infraestrutura de data centers hoje instalada no país, ainda em “fase preliminar de estudos” segundo a própria empresa, já é suficiente para reacender um debate que muitas cidades brasileiras vão precisar enfrentar nos próximos anos: até que ponto a infraestrutura digital que sustenta a inteligência artificial pode coexistir com regiões que já vivem no limite da sua disponibilidade de água.
Perguntas frequentes
Por que um data center de inteligência artificial consome tanta água?
Os supercomputadores usados para treinar e rodar modelos de IA geram grande quantidade de calor e, em muitos projetos, o resfriamento é feito com sistemas que dependem de água corrente ou evaporativa, o que eleva significativamente o consumo hídrico do complexo em comparação com data centers tradicionais.
Paracatu já enfrentava problemas de água antes do anúncio do data center?
Sim. A cidade acumula décadas de pressão sobre seus recursos hídricos por causa da mineração de ouro e da agricultura irrigada em larga escala, dois fatores já apontados por moradores e ex-gestores públicos como responsáveis pelo rebaixamento do lençol freático na região.
Quando o data center de Paracatu deve entrar em operação?
Segundo o projeto descrito nas reportagens, a operação parcial está prevista para dezembro de 2027, com conclusão total da obra estimada para 2030 — prazos que ainda podem mudar, já que a empresa responsável classifica a iniciativa como estudo preliminar.


Gerar Post/Story