Todos os anos, em 16 de setembro, o mundo marca o Dia Internacional da Camada de Ozônio — uma data que, para mim, resume um dos raros casos em que a humanidade identificou um problema ambiental grave, criou um acordo global para resolvê-lo e, décadas depois, está efetivamente vendo os resultados. Neste 2026, a efeméride completa 39 anos desde a assinatura do Protocolo de Montreal, tratado que se tornou referência mundial em cooperação ambiental e que, segundo os relatórios científicos mais recentes, colocou a camada de ozônio em rota de recuperação total nas próximas décadas.
Explico neste texto por que essa data existe, como os cientistas descobriram o problema, o que foi feito para resolvê-lo e onde estamos hoje nessa recuperação.
Por que o Dia Internacional da Camada de Ozônio é comemorado em 16 de setembro
A data escolhida pela Assembleia Geral da ONU não é aleatória: em 16 de setembro de 1987, representantes de dezenas de países assinaram, em Montreal, o Protocolo Relativo às Substâncias que Destroem a Camada de Ozônio — o desdobramento prático da Convenção de Viena, firmada dois anos antes, em 1985, para proteger essa camada da atmosfera. O protocolo entrou em vigor em 1989 e, com o tempo, se tornou o primeiro tratado da história das Nações Unidas a alcançar ratificação universal: todos os Estados-membros da ONU aderiram a ele, algo que nenhum outro acordo ambiental conseguiu repetir até hoje.
Na prática, o Protocolo de Montreal estabeleceu um cronograma para eliminar gradualmente a produção e o consumo de substâncias que destroem o ozônio, os chamados SDOs (substâncias destruidoras da camada de ozônio) — entre elas os clorofluorcarbonos (CFCs), usados por décadas em geladeiras, aparelhos de ar-condicionado, espumas e sprays aerossóis. Passadas quase quatro décadas, o tratado já eliminou mais de 99% dessas substâncias no mundo, segundo dados compilados pela Organização Meteorológica Mundial (OMM).
Como os cientistas descobriram o buraco na camada de ozônio
A história começa em meados da década de 1980, quando uma equipe de pesquisadores do British Antarctic Survey, liderada por Joseph Farman, Brian Gardiner e Jonathan Shanklin, identificou uma queda anormalmente acentuada na concentração de ozônio sobre a Antártida. A descoberta, publicada na revista Nature em 1985, surpreendeu a comunidade científica: os modelos da época não previam uma perda tão rápida e localizada. Ficou estabelecido o que passou a ser popularmente chamado de “buraco na camada de ozônio” — na verdade, uma região da estratosfera com concentração de ozônio drasticamente reduzida, que se forma sazonalmente sobre o polo sul.
O ozônio estratosférico funciona como um escudo natural, absorvendo a maior parte da radiação ultravioleta do tipo B (UV-B) emitida pelo sol antes que ela chegue à superfície. Sem essa camada, a exposição à radiação UV-B aumenta significativamente os riscos de câncer de pele, catarata e danos a ecossistemas aquáticos e agrícolas. Foi exatamente esse risco que, dois anos depois da descoberta do British Antarctic Survey, levou os governos a fecharem rapidamente o Protocolo de Montreal — um dos acordos ambientais internacionais negociados com mais agilidade na história.
Os números da recuperação em 2026
Segundo reportagem da Agência Brasil sobre o Boletim de Ozônio da Organização Meteorológica Mundial, divulgado em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), a camada de ozônio segue em trajetória de recuperação. As projeções científicas indicam recuperação total aos níveis observados antes de 1980 em três etapas: por volta de 2040 para a maior parte do globo, 2045 para a região do Ártico e 2066 para a Antártida, onde o efeito do buraco sazonal é mais intenso e persistente.
O monitoramento por satélite também mostra sinais concretos dessa melhora. Em 2024, o buraco sobre a Antártida atingiu um déficit máximo de 46,1 milhões de toneladas de ozônio em 29 de setembro — um valor menor do que os registrados entre 2020 e 2023, reforçando a tendência de redução gradual observada pelos cientistas nos últimos anos. Esses dados são a evidência mais concreta de que um acordo internacional bem desenhado, com metas claras e prazos definidos, pode reverter um dano ambiental de escala planetária.
O Acordo de Kigali e o capítulo mais recente da história
Em 2016, o Protocolo de Montreal ganhou uma extensão importante: a Emenda de Kigali, já ratificada por mais de 160 países, que passou a regular os hidrofluorcarbonos (HFCs). Esses gases não destroem a camada de ozônio — foram, inclusive, adotados como substitutos dos CFCs —, mas têm um potencial de aquecimento global centenas a milhares de vezes maior que o do dióxido de carbono. Ao determinar a redução progressiva do uso de HFCs na refrigeração e no ar-condicionado, a Emenda de Kigali é hoje apontada por cientistas climáticos como uma medida capaz de evitar até 0,5°C de aquecimento global adicional até o fim do século — um número que, sozinho, ilustra por que o Protocolo de Montreal continua sendo citado como o tratado ambiental mais bem-sucedido já negociado.
Por que essa data também importa para o Brasil
O Brasil integra o Protocolo de Montreal desde os anos 1990 e acompanhou o cronograma internacional de eliminação de CFCs, halons e outras substâncias controladas em setores como refrigeração doméstica e comercial, ar-condicionado automotivo e produção de espumas. Ainda que o debate público em torno da camada de ozônio tenha perdido espaço para a discussão sobre mudanças climáticas nas últimas duas décadas, os dois temas estão ligados: proteger a atmosfera de gases nocivos, seja pelo efeito na camada de ozônio, seja pelo efeito estufa, depende do mesmo tipo de cooperação internacional testada — e validada — pelo Protocolo de Montreal desde 1987.
Essa mesma lógica de cooperação científica para enfrentar ameaças ambientais aparece hoje em outras frentes, como venho acompanhando por aqui no caso do estudo que aponta maior risco de extinção entre aves coloridas, outro exemplo de como dados científicos bem documentados orientam decisões de conservação.
FAQ — Dia Internacional da Camada de Ozônio
Por que o Dia Internacional da Camada de Ozônio é comemorado em 16 de setembro?
Porque nessa data, em 1987, foi assinado o Protocolo de Montreal, o tratado internacional que estabeleceu metas para eliminar a produção de substâncias que destroem a camada de ozônio, como os CFCs.
Quando a camada de ozônio deve se recuperar totalmente?
Segundo a Organização Meteorológica Mundial, a recuperação total aos níveis anteriores a 1980 é esperada por volta de 2040 na maior parte do globo, 2045 no Ártico e 2066 na Antártida, onde o buraco sazonal ainda é mais expressivo.
O que substituiu os CFCs banidos pelo Protocolo de Montreal?
Inicialmente, os CFCs foram substituídos por HFCs (hidrofluorcarbonos), que não destroem o ozônio, mas têm alto potencial de aquecimento global — o que motivou a Emenda de Kigali, de 2016, a regular também a redução progressiva desses gases.
O Brasil faz parte do Protocolo de Montreal?
Sim. O país é signatário do acordo desde a década de 1990 e seguiu o cronograma internacional de eliminação de substâncias controladas em setores como refrigeração e ar-condicionado.


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