Vista aérea de canal estreito em floresta alagada na Amazônia, representando a área úmida da Amazônia
Ciência

Área úmida da Amazônia perde espaço do tamanho da Bélgica

03/11/2026 1 views 7 min de leitura

A área úmida da Amazônia perdeu, nos últimos 40 anos, uma extensão equivalente ao território da Bélgica. É o que mostra um novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), divulgado pela Mongabay Brasil em 27 de outubro. O trabalho analisa como as várzeas e os igapós da região, florestas que vivem inundadas por parte do ano, vêm sendo convertidos para outros usos, e mostra que o ritmo dessa perda acelerou na última década.

Vista aérea de canal estreito em floresta alagada na Amazônia, representando a área úmida da Amazônia
Photo by Azim Khan Ronnie on Unsplash

As áreas úmidas ocupam cerca de 30% da Amazônia brasileira. Os rios da bacia transbordam todos os anos e mantêm essas florestas alagadas por meses, um ciclo que organiza a vida de milhares de famílias ribeirinhas. Casas erguidas sobre palafitas, pesca e plantio seguem o calendário de cheia e vazante, e esse ecossistema aparece agora no novo levantamento como um dos mais pressionados da região.

O que mostra o novo estudo

Segundo o estudo, mais de 6% da área ocupada por florestas alagáveis e outras áreas úmidas da Amazônia foi desmatada entre os anos 1980 e 2024. O percentual pode parecer modesto à primeira vista, mas representa uma faixa de terra enorme. Guilherme Lobo, autor principal da pesquisa e pesquisador da Unicamp, resumiu a proporção à Mongabay Brasil por telefone: quando se pensa em 6%, a impressão é de que é pouco, mas a área convertida é basicamente do tamanho da Bélgica, país europeu com extensão um pouco maior que a do estado de Alagoas.

O dado que chama mais atenção, no entanto, é a aceleração recente. Quase um terço de toda essa destruição ocorreu só entre 2015 e 2024, um período de pouco mais de uma década dentro de uma janela de quatro décadas de observação. A conclusão é que a pressão sobre as várzeas e os igapós não está diminuindo, ao contrário do que mostram outros indicadores de desmatamento na floresta de terra firme amazônica nos últimos anos.

Como mostrei em outro texto aqui no blog sobre o desmatamento na Amazônia, o Prodes do Inpe registrou a menor taxa já medida na floresta como um todo em 2026. Esse novo estudo sobre áreas úmidas mostra que o quadro não é uniforme: enquanto o desmatamento geral recua, a perda de florestas alagáveis segue em ritmo crescente, o que sugere que esse tipo específico de ambiente pede atenção própria nas políticas de proteção.

Como o desmatamento varia conforme quem administra a terra

Um dos achados mais reveladores da pesquisa é a comparação entre treze categorias de posse e uso da terra. A maior taxa mediana de desmatamento de área úmida, quase 14%, aparece em terras públicas sem destinação específica. Segundo Lobo, esses terrenos costumam ser queimados ou desmatados para simular uso produtivo, na expectativa de obter título de propriedade mais adiante. Um estudo de 2026 do Imazon, citado na reportagem, descreve como a legislação fundiária federal e estadual acaba criando incentivos a esse tipo de grilagem, já que o desmatamento funciona como prova de ocupação em pedidos de titulação.

No outro extremo da tabela estão as áreas sob controle das Forças Armadas, com taxa de conversão inferior a 0,01%, e as terras indígenas, com índices igualmente baixos: 0,2% nas terras já formalmente reconhecidas e 0,3% nas que ainda aguardam demarcação. Lobo observa que esses números refletem uma realidade simples: essas comunidades já viviam e já protegiam o território antes mesmo de qualquer processo de reconhecimento oficial, então a formalização apenas confirmou uma conservação que já existia na prática.

Os assentamentos de reforma agrária aparecem como a categoria com o ritmo anual mais rápido de conversão. Quinze anos após a criação de um assentamento convencional, 24% de sua área úmida já havia sido transformada para uso humano, contra 8,5% antes da instalação do programa. Os assentamentos de reforma agrária sustentável, voltados a posse coletiva e extração de produtos florestais, tiveram uma trajetória bem mais lenta: de 2,4% para cerca de 3,5% no mesmo intervalo de tempo.

Para Lobo, o problema não está na propriedade em si, mas no modelo de ocupação que cada política impõe. Segundo ele, o que separa as categorias que conservam das que não conservam não é apenas ter um responsável definido pela terra, mas sim ter regras claras de uso. Assentamentos convencionais, lembra o pesquisador, exigem que os ocupantes comprovem uso produtivo da terra, mas oferecem pouco monitoramento ambiental e quase nenhum apoio a formas alternativas de geração de renda que não envolvam desmatar.

A pesquisa de Lobo e sua equipe foi publicada na Scientific Reports, periódico do grupo Nature, e chega em um momento de atenção redobrada à Amazônia, com o Brasil sediando a conferência do clima da ONU em Belém. O recorte por categoria de posse da terra oferece um argumento concreto para quem discute políticas de conservação: regras de uso bem definidas e fiscalização continuada parecem pesar mais do que a simples existência de um título de propriedade.

Essa distinção importa porque boa parte do debate público sobre proteção ambiental ainda trata a questão da terra como um problema binário, de área protegida contra área livre para exploração. Os dados levantados por Lobo sugerem um quadro mais específico: dentro de categorias formalmente protegidas, o resultado prático depende de quem fiscaliza, com que frequência e sob quais regras concretas de manejo. Políticas de titulação que recompensam o desmatamento como prova de uso, mesmo sem essa intenção declarada, tendem a produzir o efeito contrário ao que pretendem.

Por que isso importa para quem vive na Amazônia

As várzeas e os igapós não são apenas paisagem. Eles funcionam como berçário de peixes, área de recarga de água durante a seca e fonte direta de alimento para comunidades ribeirinhas que dependem do ciclo de cheias para plantar e colher. Perder essas áreas no ritmo atual significa também perder parte da base que sustenta a economia e a alimentação de quem vive às margens dos rios amazônicos, um efeito que dificilmente aparece nas estatísticas gerais de desmatamento da floresta.

Perguntas frequentes

O que são as áreas úmidas da Amazônia?

São as várzeas e os igapós, florestas que ficam parcial ou totalmente inundadas por meses todos os anos, seguindo o ciclo de cheia e vazante dos rios amazônicos. Elas ocupam cerca de 30% da Amazônia brasileira.

Qual foi o principal achado do estudo da Unicamp?

Mais de 6% da área úmida da Amazônia foi desmatada entre 1980 e 2024, uma extensão equivalente ao território da Bélgica. Quase um terço dessa perda aconteceu apenas entre 2015 e 2024.

Por que o desmatamento varia tanto entre os tipos de terra?

Segundo o pesquisador Guilherme Lobo, a diferença está nas regras de uso de cada categoria. Terras indígenas e áreas militares têm taxas de conversão quase nulas, enquanto terras públicas sem destinação específica e assentamentos de reforma agrária convencionais registram os maiores índices, ligados à exigência de comprovar uso produtivo para obter titulação.

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