Um fóssil de mamífero jurássico encontrado na China ajudou pesquisadores a reconstituir, com um nível de detalhe raro para fósseis dessa idade, como animais muito antigos já conseguiam mastigar e engolir de um jeito parecido com o dos mamíferos atuais. O animal, batizado de Megacauda sungei, viveu há cerca de 165 milhões de anos na região hoje conhecida como Mongólia Interior, no norte da China, e tinha hábitos que lembram os de uma lontra ou de um ornitorrinco.

O estudo, publicado em 7 de outubro na revista Nature por uma equipe liderada por Zhe-Xi Luo, da Universidade de Chicago, com colegas da Universidade de Bonn e de instituições chinesas, descreve o esqueleto mais completo já encontrado de um mamaliforme nadador do período Jurássico. O nome do gênero significa algo como “cauda grande”, numa referência direta à característica mais chamativa do animal.
Um predador do tamanho de um ornitorrinco entre os dinossauros
O Megacauda tinha entre 40 e 50 centímetros de comprimento e pesava de um a dois quilos, um tamanho avantajado para os padrões da época: a maioria dos mamaliformes que viveram ao seu redor pesava apenas alguns gramas. Isso faz dele o maior mamaliforme jurássico já descrito, próximo em porte a um ornitorrinco adulto.
O animal pertencia aos docodontes, um grupo extinto de parentes próximos dos mamíferos que viveu durante o Mesozoico na América do Norte, na Europa e na Ásia. Seu esqueleto mostra caninos robustos e dentes de corte adaptados para capturar presas escorregadias, além de patas traseiras com dedos externos alongados, parecidos com os de um ornitorrinco, e vértebras caudais em formato de H que sustentavam uma cauda larga e achatada, usada como remo na água.
Um estilo de vida semiaquático há 165 milhões de anos
Pesquisadores encontraram fragmentos de ossos de pequenos vertebrados no estômago do fóssil, evidência de que o animal caçava peixes, salamandras e invertebrados dentro da água e provavelmente descansava em tocas na terra firme entre uma caçada e outra. A cientista April Neander, da Universidade de Chicago, observou que o achado chama atenção em especial por ser mais antigo do que o Castorocauda, outro docodonte semiaquático já conhecido pela ciência.
Essa combinação de um fóssil tão antigo e tão bem conservado levou Luo a descrever a descoberta como uma peça importante para entender a história evolutiva dos primeiros parentes dos mamíferos. Segundo ele, os docodontes formam o grupo mais diverso de mamíferos primitivos já encontrado na América do Norte, na Europa e na China, e cada novo fóssil ajuda a preencher lacunas sobre como esses animais se adaptaram a diferentes ambientes, da terra seca às margens de lagos e rios. A pesquisa também recebeu apoio da National Science Foundation dos Estados Unidos, do programa Taishan Scholar da província chinesa de Shandong e da agência alemã de fomento à pesquisa DFG, um sinal de como esse tipo de achado reúne equipes de vários países ao redor de um único esqueleto.
Outra descoberta recente que também reescreveu o que se sabia sobre um grupo antigo foi a do primeiro megaraptorídeo já identificado na Europa, achado num fragmento de crânio esquecido por décadas num museu britânico. Nos dois casos, o material já existia há tempos: o que muda, com novas técnicas de imagem e de análise, é a capacidade de extrair dele informações que antes passavam despercebidas.
O que a garganta do Megacauda revela sobre a evolução dos mamíferos
A maior novidade do estudo, porém, está numa região do corpo que raramente se preserva em fósseis: a garganta. O esqueleto do Megacauda manteve ossos delicados do hioide e da base do crânio, estruturas que sustentam os músculos usados para engolir. Essa configuração, em forma de “sela” curva, é a mesma que permite aos mamíferos atuais engolir o alimento mastigado em porções controladas e aos filhotes mamarem sem engasgar.
Peishu Li, coautora do estudo hoje na Universidade de Ohio, comparou a musculatura reconstituída à garganta de um gambá atual. Thomas Martin, da Universidade de Bonn, resumiu a importância do achado afirmando que é a evidência mais antiga de um hábito aquático em mamíferos, e explicou que muitas espécies de animais não têm palato mole nem um mecanismo de deglutição como esse: a capacidade de engolir leite rico em nutrientes sem que ele entre pelo nariz é uma adaptação que já estava presente nos ancestrais comuns dos docodontes e dos mamíferos. Para Luo, depois que um mamífero mastiga o alimento, seja vegetal ou carne, ele engole da mesma forma eficiente, um traço que o Megacauda já carregava muito antes do surgimento dos primeiros mamíferos verdadeiros.
O fóssil também chamou atenção por ampliar o que se sabia sobre o parente mais próximo já estudado, o pequeno Microdocodon gracilis, descrito em 2019 e da mesma época geológica. Enquanto aquele animal media só alguns centímetros, o Megacauda prova que estruturas de garganta parecidas com as dos mamíferos atuais também evoluíram em corpos muito maiores, numa época em que a maioria dos parentes dos mamíferos ainda vivia na sombra dos dinossauros.
O que é o Megacauda sungei?
É uma espécie fóssil de mamaliforme docodonte que viveu há cerca de 165 milhões de anos na China. Media entre 40 e 50 centímetros, tinha cauda larga e achatada e hábitos semiaquáticos parecidos com os de uma lontra atual.
Onde o fóssil foi encontrado?
O esqueleto foi encontrado na região da Mongólia Interior, no norte da China, área conhecida por preservar fósseis do período Jurássico com alto grau de detalhe, incluindo tecidos e estruturas delicadas raramente conservadas.
Por que essa descoberta importa para a ciência?
Porque o fóssil preservou ossos da garganta que mostram uma anatomia já parecida com a dos mamíferos atuais, usada para mastigar, engolir e, mais tarde na evolução, amamentar. Isso empurra para mais longe no tempo a origem desses mecanismos, bem antes do surgimento dos primeiros mamíferos verdadeiros.

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