
A represa Hoover completa hoje 90 anos desde que seu primeiro gerador passou a operar em plena capacidade, um marco registrado em 26 de outubro de 1936 no cânion do rio Colorado, na fronteira entre os estados americanos de Arizona e Nevada. Conheci essa história ao notar que ela aparece com frequência em listas de grandes feitos da engenharia do século 20, e os detalhes da construção me chamaram atenção mais do que eu esperava.
Uma obra erguida durante a Grande Depressão
O Congresso dos Estados Unidos autorizou o projeto em 1928, e o consórcio Six Companies venceu a licitação e começou as obras no início de 1931. O orçamento inicial foi de 49 milhões de dólares, equivalentes a cerca de 811 milhões de dólares em valores de 2024. Como o país vivia a Grande Depressão, o canteiro de obras atraiu milhares de pessoas desempregadas para o sul de Nevada: Las Vegas tinha cerca de 5 mil habitantes na época e recebeu entre 10 mil e 20 mil pessoas em busca de trabalho. Para abrigar os operários, o governo construiu a cidade modelo de Boulder City, e o número de funcionários chegou ao pico de 5.251 pessoas em julho de 1934.
O trabalho no cânion era perigoso. Os registros associam 112 mortes à obra, das quais 96 ocorreram no próprio canteiro; a causa mais comum era a queda de objetos. Entre 25 de junho e 26 de julho de 1931, dezesseis trabalhadores e moradores das margens do rio morreram de insolação, em plena onda de calor do deserto. Outro ponto que vale registrar: a história de que operários teriam sido enterrados dentro do concreto é um mito sem comprovação.
A engenharia que resfriou o concreto mais rápido que a natureza
A concretagem começou em 6 de junho de 1933 e terminou em 29 de maio de 1935, ambos os marcos alcançados antes do prazo previsto. O desafio técnico era o calor liberado pelo próprio concreto durante a cura: os engenheiros calcularam que uma concretagem contínua, em bloco único, levaria 125 anos para esfriar por completo. A solução foi dividir a barragem em blocos menores e instalar cerca de 582 milhas de tubos de resfriamento dentro do concreto, por onde circulava água fria. No total, a obra consumiu 3,25 milhões de jardas cúbicas de concreto, volume suficiente para pavimentar uma rodovia de duas faixas entre São Francisco e Nova York.
Outros detalhes da obra também ficaram famosos. Um teleférico elétrico com vão de 1.200 pés sobre o cânion e capacidade para 150 toneladas transportava os equipamentos mais pesados, incluindo os geradores. Os chamados “high scalers” removiam rochas soltas das paredes do cânion pendurados por cordas, e os capacetes impermeabilizados com alcatrão usados por eles deram origem aos modelos de capacete de segurança usados até hoje. A engenheira Mabel Macferran Rockwell foi a única mulher envolvida diretamente na instalação dos equipamentos de geração de energia do projeto.
Do primeiro gerador à maior hidrelétrica do mundo
A dedicação oficial da barragem ocorreu em 30 de setembro de 1935, com a presença do presidente Franklin D. Roosevelt, e o governo federal recebeu a obra em 1º de março de 1936, mais de dois anos antes do prazo contratual. A primeira geração de eletricidade aconteceu em 11 de setembro de 1936, mas foi só em 26 de outubro daquele ano, há exatamente 90 anos, que o primeiro gerador passou a funcionar em capacidade plena, segundo reportagem da publicação especializada em engenharia eletrônica EDN.
Até setembro de 1939, outros seis geradores já estavam instalados, e a usina se tornou a maior hidrelétrica do mundo na época. O último gerador entrou em serviço em 1961, elevando a capacidade máxima para 1.345 megawatts, e uma modernização concluída entre 1986 e 1993 levou a capacidade bruta a cerca de 2.080 megawatts. Em 2020, a geração anual ficou em torno de 3,3 terawatts-hora, embora a seca que reduziu o nível do Lago Mead já tenha feito a capacidade cair 23% em 2014, para 1.592 megawatts, o que levou à instalação de cinco turbinas adaptadas para operar com volumes de água mais baixos. A energia gerada abastece Nevada, Arizona e Califórnia, enquanto a água represada serve cerca de 18 milhões de pessoas e irriga mais de 1 milhão de acres de terras agrícolas nos três estados.
Lembro de ter escrito recentemente sobre outro marco centenário da história da energia elétrica, a lâmpada incandescente de Thomas Edison, e o paralelo entre os dois casos me chama atenção: decisões de infraestrutura tomadas há quase um século continuam sustentando parte da vida moderna sem que a maioria das pessoas perceba isso no dia a dia. A barragem foi incluída no Registro Nacional de Lugares Históricos dos Estados Unidos em 1981 e declarada Monumento Histórico Nacional em 1985, reconhecimentos que confirmam seu peso na história da engenharia.
Acho notável que uma estrutura projetada nos anos 1930, em plena crise econômica, ainda defina parte do fornecimento de energia e água para três estados americanos quase um século depois de sua construção.
Perguntas frequentes
Quando a represa Hoover foi inaugurada oficialmente?
A dedicação oficial ocorreu em 30 de setembro de 1935, com a presença do presidente Franklin D. Roosevelt. O governo federal recebeu formalmente a obra das mãos do consórcio construtor em 1º de março de 1936, e o primeiro gerador só atingiu capacidade plena em 26 de outubro daquele ano.
Quantos trabalhadores morreram durante a construção da represa Hoover?
Os registros associam 112 mortes à construção, das quais 96 ocorreram diretamente no canteiro de obras. Quedas de objetos foram a causa mais comum, e dezesseis pessoas morreram de insolação durante uma onda de calor em 1931. O mito de que corpos teriam sido enterrados dentro do concreto não tem comprovação.
Qual é a capacidade de geração de energia da represa Hoover hoje?
Depois da modernização concluída em 1993, a capacidade bruta instalada chegou a cerca de 2.080 megawatts, com geração anual próxima de 3,3 terawatts-hora em 2020. A energia abastece Nevada, Arizona e Califórnia, e a água do reservatório chega a cerca de 18 milhões de pessoas nesses três estados.
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