Bugio em árvore na floresta amazônica, representando as novas espécies de bugio descobertas
Ciência

Novas espécies de bugio são descobertas na Amazônia

04/11/2026 1 views 7 min de leitura
Bugio em árvore na floresta amazônica, representando as novas espécies de bugio descobertas
Photo by Renting C on Unsplash

Novas espécies de bugio acabam de ser descritas na Amazônia, encerrando um intervalo de mais de oito décadas sem nenhuma descrição nova para esse gênero de macacos. Um estudo publicado na revista Communications Biology, do grupo Nature, identificou dois animais que antes eram confundidos com espécies já conhecidas: o bugio-vermelho-do-Mato Grosso (Alouatta matogrossensis) e o bugio-vermelho-do-Pantepui (Alouatta iroi). A pesquisa combinou sequenciamento genômico de onze espécies do gênero Alouatta com medições morfológicas de espécimes guardados em coleções de história natural, reunindo evidências suficientes para separar as duas populações como espécies próprias.

A equipe foi liderada por pesquisadores da Universidade de Salford, no Reino Unido, com a bióloga Romina Batista como primeira autora, e contou com a participação de cientistas do CIBIO-BIOPOLIS, centro de pesquisa em biodiversidade ligado à Universidade do Porto. Antes deste trabalho, a última vez que um bugio havia recebido uma descrição formal como espécie nova foi nos anos 1940, quando o bugio-vermelho-do-Purus (Alouatta puruensis) entrou para a lista de primatas reconhecidos pela ciência.

Quem são os novos bugios

O bugio-vermelho-do-Mato Grosso ocupa a porção sul da Amazônia, numa faixa de floresta situada entre os rios Madeira e Teles Pires, com limite ao sul já na transição para áreas de savana. Até a publicação do estudo, essa população era tratada como parte do bugio-vermelho-do-Purus, apesar de morfologia e genética distintas. Já o bugio-vermelho-do-Pantepui foi descrito a partir de populações do noroeste amazônico, numa região associada ao maciço de Pantepui, área de planaltos e serras que se estende entre Brasil, Venezuela e Guiana.

Os dois animais pertencem ao grupo dos bugios-vermelhos, primatas de porte médio, cauda preênsil e pelagem que varia do castanho ao ruivo intenso, dependendo da população. Como outros membros do gênero Alouatta, vivem em grupos familiares, passam a maior parte do tempo em copas de árvores altas e têm dieta baseada em folhas, frutos e flores.

Como os cientistas chegaram à nova classificação

Para separar as novas espécies das já descritas, a equipe cruzou dados genômicos de onze espécies do gênero Alouatta encontradas na América Central e do Sul com medições físicas de peles, crânios e esqueletos preservados em museus. Essa combinação de DNA e morfologia permitiu identificar diferenças consistentes entre populações que, a olho nu, pareciam pertencer a um mesmo grupo. Os pesquisadores também recorreram a registros fotográficos recentes para documentar características externas dos animais vivos, incluindo cor da pelagem e padrões de vocalização.

Essa metodologia combinada é cada vez mais usada em taxonomia de primatas porque grandes rios amazônicos funcionam como barreiras geográficas que isolam populações durante milhares de anos. Ao longo desse tempo, grupos que viviam em margens opostas de rios como o Amazonas, o Branco e o Xingu acumularam diferenças genéticas suficientes para se tornarem linhagens distintas, mesmo sem mudanças visíveis imediatas na aparência externa.

Onde é possível observar o novo bugio brasileiro

Parte da população do bugio-vermelho-do-Mato Grosso pode ser observada em vida livre na Fazenda Anacã, propriedade situada na região amazônica do município de Alta Floresta, no norte do Mato Grosso, segundo reportagem do Nativa News. O registro fotográfico que acompanha a divulgação do estudo foi feito justamente ali, reforçando a ideia de que descobertas científicas relevantes continuam surgindo em áreas já conhecidas, não apenas em expedições a trechos remotos e inexplorados da floresta.

A faixa de floresta onde vive o bugio-vermelho-do-Mato Grosso coincide, em boa parte, com o chamado arco do desmatamento, região de avanço histórico da pecuária e da agricultura sobre a vegetação nativa no sul da Amazônia. Segundo os autores do estudo, essa sobreposição é motivo de preocupação: a espécie recém-descrita ainda não tem avaliação formal de risco de extinção, mas a perda e a fragmentação de habitat sugerem que ela pode ser classificada como criticamente em perigo quando essa análise for concluída.

Os bugios e o rugido mais potente entre os animais terrestres

Bugios de todas as espécies do gênero Alouatta são conhecidos por emitir um dos sons mais altos já registrados entre os mamíferos terrestres. O rugido, produzido por um osso hioide modificado e aumentado na garganta, funciona como câmara de ressonância e permite que a vocalização seja ouvida a quilômetros de distância em meio à mata fechada. Os grupos usam esse som para marcar território e evitar encontros diretos com outros grupos rivais, economizando energia que seria gasta em deslocamentos e confrontos físicos.

Essa característica torna os bugios parte importante do ecossistema sonoro da floresta amazônica e também um símbolo recorrente em relatos de viajantes e pesquisadores que descrevem a mata como um ambiente onde se ouve mais do que se vê. A diversidade escondida dentro do gênero, revelada agora por ferramentas genômicas que não existiam décadas atrás, indica que outras populações hoje tratadas como uma única espécie podem, no futuro, ser separadas em linhagens próprias.

O caso reforça um padrão observado em outros estudos recentes sobre a fauna amazônica: a perda de habitat natural na região segue avançando mais rápido do que a capacidade da ciência de catalogar toda a biodiversidade que ainda existe ali, o que torna cada nova descrição também um registro urgente antes de uma eventual perda irreversível.

Para os pesquisadores envolvidos, a principal lição do estudo é que coleções de história natural e dados de campo acumulados por décadas continuam sendo ferramentas valiosas, mesmo décadas depois de os espécimes originais terem sido coletados. Combinadas com tecnologias genômicas atuais, essas coleções permitem revisar classificações antigas e revelar diversidade que passou despercebida por gerações de cientistas.

Perguntas frequentes

Quais são os nomes das novas espécies de bugio descobertas?

As duas espécies recém-descritas são o bugio-vermelho-do-Mato Grosso (Alouatta matogrossensis), encontrado no sul da Amazônia brasileira, e o bugio-vermelho-do-Pantepui (Alouatta iroi), identificado em populações do noroeste amazônico.

Por que essa descoberta é considerada rara?

Porque o gênero Alouatta não recebia uma descrição de espécie nova desde os anos 1940, quando o bugio-vermelho-do-Purus foi reconhecido pela ciência. O intervalo de mais de oito décadas torna a identificação de duas espécies de uma só vez um evento pouco comum na taxonomia de primatas.

Onde no Brasil é possível ver o novo bugio?

Parte da população do bugio-vermelho-do-Mato Grosso ocorre na Fazenda Anacã, na região amazônica do município de Alta Floresta, no norte do estado do Mato Grosso, área que também serviu de referência para o registro fotográfico usado na divulgação do estudo.

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