Satélite da Google em órbita da Terra, usado no Project Suncatcher
Inteligência Artificial

satélite de IA do Google escreve haicai no espaço

05/11/2026 1 views 6 min de leitura

O satélite de IA do Google rodou, pela primeira vez, um modelo de linguagem em órbita e mandou a resposta de volta para a Terra. O experimento faz parte do Project Suncatcher, iniciativa que testa se faz sentido colocar computação de inteligência artificial no espaço, usando energia solar quase ininterrupta em vez da eletricidade e da água que data centers terrestres consomem todos os dias.

Satélite da Google em órbita da Terra, usado no Project Suncatcher
Photo by NASA on Unsplash

O protótipo foi lançado em 1º de outubro de 2026, a bordo de um foguete da SpaceX que partiu da Base da Força Espacial de Vandenberg, na Califórnia, em uma missão compartilhada com a empresa de imageamento Planet. A bordo, o satélite leva chips Trillium, a mesma linha de TPU (unidade de processamento tensorial) que o Google usa em seus data centers na Terra para treinar e executar modelos de IA.

Como o haicai chegou até a Terra

No dia 30 de outubro, durante uma passagem do satélite por uma estação terrestre, a equipe do Google anunciou em comunicado oficial ter enviado um comando simples: pediu que o modelo Gemma 4, instalado a bordo, escrevesse um haicai. O chip processou o pedido sozinho, em órbita, sem qualquer conexão com os servidores do Google na Terra. O resultado só desceu minutos depois, quando o satélite passou sobre o arquipélago norueguês de Svalbard, onde fica uma das estações terrestres usadas pelo projeto.

O poema recebido foi este, em inglês: “Blue marble below / Data streams in silent grace / Starlight feeds my core”. Em tradução livre, fala de um “mármore azul” visto de cima, de dados que fluem em silêncio e de luz das estrelas alimentando o núcleo do chip. Depois do haicai, a equipe testou outros pedidos, incluindo limeriques e consultas de telemetria do próprio satélite, todos processados a bordo.

Por que tirar a inteligência artificial da Terra

A lógica por trás do Project Suncatcher é energética. Em órbita baixa, painéis solares recebem luz do sol quase o tempo todo, sem nuvens, sem noite na mesma intensidade de um painel instalado no solo e, segundo o Google, com até oito vezes mais energia solar disponível do que equivalente na superfície terrestre. Para uma tecnologia que depende cada vez mais de eletricidade, isso muda a conta de onde vale a pena processar dados.

No Brasil, essa conta já apareceu de um jeito concreto. Escrevi antes sobre o data center de IA que a Atlas Renewable Energy está construindo em Paracatu (MG), e sobre o temor de que o projeto agrave a crise hídrica de uma cidade que já sofre com falta de água. Instalações terrestres de IA consomem energia para processar e água para resfriar os servidores; o experimento do Google testa se parte dessa carga pode migrar para fora da atmosfera, onde o resfriamento depende só de radiadores e do vácuo, e a energia vem direto do sol.

Os obstáculos técnicos ainda são grandes

Levar um TPU ao espaço não é trivial. No lançamento, o satélite enfrentou vibrações de até 10 g, com picos que podem chegar a 100 g em componentes isolados; o Google testou os chips nos três eixos antes de aprová-los para voo. Em órbita, sem atmosfera para carregar o calor, a única saída é irradiá-lo para o espaço por meio de radiadores e tubos de calor, testados antes em câmaras de vácuo térmico.

Radiação também é um problema sério. Partículas de alta energia podem corromper dados processados por um chip exposto, então o Google bombardeou os TPUs com feixes de prótons no laboratório Crocker Nuclear, da Universidade da Califórnia em Davis, simulando anos de exposição espacial em poucas horas. Segundo a equipe, os chips se comportaram bem nesses testes, mas o plano de longo prazo depende de outro desafio: conectar vários satélites por laser, com precisão comparada pelo próprio Google a acertar uma moeda a quilômetros de distância.

O que vem a seguir

Travis Beals, diretor sênior de Paradigms of Intelligence no Google, descreveu o momento dizendo que os chips “ganharam oficialmente suas asas espaciais”. Ele também já havia alertado, quando o projeto foi anunciado em setembro, que explorar o espaço como local viável para computação de IA em escala “não vai acontecer de uma vez”.

O próximo marco previsto é lançar um par de satélites interligados em 2027, testando pela primeira vez a comunicação por laser entre dois chips em órbita. Se esse teste funcionar, a ideia é evoluir para clusters maiores, com dezenas de TPUs conectados, formando algo parecido com um data center distribuído entre vários satélites. O Google ainda não divulgou quantas unidades planeja lançar no total nem um custo estimado para o projeto completo.

Por ora, o Project Suncatcher segue na fase que o próprio Google chama de pesquisa de longo prazo, sem promessa de uso comercial em prazo definido. Mas o fato de um modelo de linguagem ter processado um pedido inteiro, sozinho, a bordo de um satélite, e de a resposta ter voltado íntegra para a Terra, já funciona como prova de conceito de que pelo menos parte da infraestrutura de IA do futuro pode não ficar no chão.

Perguntas frequentes

O que é o Project Suncatcher?

É um projeto de pesquisa do Google que testa a viabilidade de rodar computação de inteligência artificial, incluindo modelos de linguagem, a bordo de satélites movidos a energia solar, em vez de data centers na superfície da Terra.

Qual IA rodou a bordo do satélite?

O modelo usado foi o Gemma 4, uma versão open weight da família de modelos de IA do Google, instalada diretamente no chip Trillium (TPU) que viaja a bordo do satélite protótipo lançado em outubro de 2026.

Quando o Google pretende expandir o projeto?

O próximo passo anunciado é lançar dois satélites interligados por laser em 2027, para testar a comunicação direta entre chips em órbitas diferentes antes de considerar clusters maiores com dezenas de TPUs.

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