dragão-barbudo, um dos répteis exóticos mais vendidos como animal de estimação no Brasil
Ciência

venda de répteis exóticos cresce 1.000% no brasil

06/11/2026 3 views 6 min de leitura

A venda de répteis exóticos no Brasil cresceu quase 1.000% em cinco anos, segundo um levantamento da Mongabay Brasil publicado em 2 de novembro de 2026. A reportagem, assinada por Fernanda Wenzel, usou pedidos feitos com base na Lei de Acesso à Informação para reunir dados do Sisfauna, sistema do Ibama, e do Gefau, cadastro próprio de São Paulo. O resultado mostra 9.131 répteis de 27 espécies exóticas vendidos no país desde 2021, um salto de 236 animais em 2021 para mais de 2.500 em 2025.

dragão-barbudo, um dos répteis exóticos mais vendidos como animal de estimação no Brasil
Photo by Adam Mills on Unsplash

Como os dados foram levantados

Os números cobrem apenas o comércio legal de répteis exóticos, aqueles licenciados por criadouros comerciais autorizados a reproduzir e vender espécies que não são nativas do Brasil. Em 2026, mesmo com o ano ainda incompleto no momento da apuração, já haviam sido registradas 2.088 vendas até julho, um ritmo que mantém a trajetória de alta dos anos anteriores. A Mongabay não encontrou uma forma de estimar o tamanho do comércio ilegal, que especialistas ouvidos pela reportagem consideram ainda maior que o mercado formal.

As espécies mais vendidas são o gecko-leopardo, o dragão-barbudo, a píton-bola, a cobra-rei, a jiboia-da-areia-queniana e a cobra-do-leite. O dragão-barbudo sozinho somou 1.785 vendas desde 2021, o que o coloca entre os animais de estimação exóticos mais populares do país. Entre os casos que chamam atenção pelo grau de ameaça, a reportagem aponta a venda de 157 tartarugas-de-esporas-africanas, espécie classificada como vulnerável.

A importação de répteis exóticos é proibida no Brasil desde 1998, mas a lei não impediu que um mercado interno de criação em cativeiro se formasse a partir de animais já presentes no país antes da proibição ou trazidos ilegalmente nas décadas seguintes. O crescimento das redes sociais ajudou a popularizar esses bichos como animais de estimação, com vídeos de donos mostrando dragões-barbudos e geckos-leopardo em terrários decorados, o que especialistas associam ao salto nas vendas registrado a partir de 2021.

Onde está concentrado o comércio legal

Paraná, Alagoas e São Paulo lideram o número de vendas registradas. O Paraná aparece com 4.949 répteis exóticos comercializados, seguido por Alagoas, com 2.717, e por São Paulo, com 1.457 pelo sistema estadual Gefau. A concentração nesses três estados está ligada a uma interpretação da legislação ambiental que, desde 2011, permite a alguns órgãos estaduais licenciar criadouros de espécies exóticas com base na leitura de que a norma federal fala em “fauna silvestre” sem especificar que precisa ser nativa. O Ibama ainda não resolveu de forma definitiva essa brecha, e o tema divide a área técnica do próprio órgão, segundo o ex-presidente da autarquia Rodrigo Agostinho.

Os riscos ambientais apontados por especialistas

Para a bióloga Sílvia Ziller, do Instituto Hórus, o crescimento desse comércio aumenta o risco de espécies exóticas escaparem ou serem soltas por donos e se estabelecerem na natureza brasileira, competindo com a fauna nativa ou transmitindo doenças. O analista João Alvarez de Sá, do Ibama, cita répteis e anfíbios exóticos como grupos com alto potencial de se tornarem invasores quando chegam a ambientes sem seus predadores ou parasitas naturais. Casos de tartarugas-de-orelha-vermelha e pítons soltos em rios e lagoas brasileiras já são registrados em diferentes estados, embora a reportagem não quantifique quantos desses episódios têm origem no comércio legal investigado.

Outro ponto levantado pela procuradora Lívia Nascimento Tinoco, do Ministério Público Federal, é a dificuldade de controlar o que realmente acontece dentro dos criadouros autorizados. Sem fiscalização constante, fica difícil saber se os animais vendidos nasceram ali ou entraram no sistema por outras vias, incluindo o comércio clandestino que também aparece na reportagem como parte do problema, com vendas informais feitas por redes sociais e até pelos Correios.

A zona cinzenta da “lavagem” de animais apreendidos

Um parecer técnico do analista ambiental do Ibama Roberto Cabral Borges, citado pela Mongabay, descreve um mecanismo que preocupa parte da equipe do órgão: animais exóticos apreendidos em operações contra o tráfico às vezes são repassados a criadouros comerciais, de onde podem voltar ao mercado como se tivessem nascido em cativeiro legal. Entre 2020 e 2024, houve 77 transferências desse tipo só no Paraná e em Alagoas. O próprio Ibama proibiu essa prática em 2023, mas a reportagem mostra que o episódio levanta dúvidas sobre quanto do comércio “legal” atual já passou por essa espécie de lavagem de animais.

O problema da venda de répteis exóticos se soma a outros casos que mostram as brechas na fiscalização da vida selvagem no Brasil, como a comercialização de espécies marinhas protegidas mesmo após decisões do Ibama que deveriam ter encerrado essas práticas, a exemplo do que ocorre com o tubarão-anjo ainda vendido em peixarias do Rio Grande do Sul. Nos dois casos, a distância entre a norma escrita e a aplicação prática acaba sendo preenchida por interpretações estaduais divergentes e por um sistema de fiscalização que não acompanha o ritmo do comércio.

A reportagem da Mongabay também procurou outros órgãos citados na apuração, como o Conselho Nacional do Meio Ambiente, a Advocacia-Geral da União e a Polícia Militar Ambiental, além do Instituto do Meio Ambiente de Alagoas, que não respondeu aos pedidos de entrevista. A Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres e o Sebrae também aparecem no material consultado pela reportagem, o que dá uma ideia de quantas frentes diferentes, ambientais, jurídicas e até de apoio a pequenos negócios, acabam cruzando o caminho desse comércio.

Perguntas frequentes

É legal comprar répteis exóticos no Brasil?

Sim, em parte. Desde 2011, alguns estados, principalmente Paraná e Alagoas, licenciam criadouros comerciais autorizados a reproduzir e vender espécies exóticas, mesmo com a importação desses animais proibida desde 1998. A compra desses répteis nesses criadouros é legal, mas o comércio informal por redes sociais ou sem registro não é.

Quais répteis exóticos são mais vendidos no Brasil?

Segundo o levantamento da Mongabay Brasil, os mais vendidos são o gecko-leopardo, o dragão-barbudo, a píton-bola, a cobra-rei, a jiboia-da-areia-queniana e a cobra-do-leite. O dragão-barbudo lidera com 1.785 vendas registradas desde 2021.

Por que o comércio de répteis exóticos preocupa ambientalistas?

Porque animais que escapam ou são soltos por seus donos podem se tornar espécies invasoras, competindo com a fauna nativa por espaço e alimento ou transmitindo doenças. Especialistas também apontam falhas de fiscalização que permitem que animais apreendidos do tráfico sejam repassados a criadouros comerciais, misturando-se ao comércio considerado legal.

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