O desmatamento na Amazônia caiu para o menor nível já registrado desde que o monitoramento por satélite da região começou, em 1988. Segundo os dados do Prodes, sistema de referência do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima em 16 de outubro, a área desmatada no bioma somou 3.335 km² entre agosto de 2025 e julho de 2026. O número representa uma queda de 41,8% em relação aos 5.731 km² apurados no ciclo anterior.

Os números da Amazônia por estado
A redução não foi uniforme entre os estados amazônicos, mas apareceu em quase todos eles. O Pará concentrou a maior área desmatada do bioma, com 1.130 km², equivalentes a 33,9% do total, seguido por Mato Grosso (849 km², 25,5%) e Amazonas (525 km², 15,7%). Depois vêm Roraima (286 km²), Acre (252 km²), Rondônia (149 km²) e Maranhão (128 km²), enquanto Amapá e Tocantins registraram apenas 8 km² cada, as menores áreas de toda a série. Comparado ao pico de 2021, ainda no governo de Jair Bolsonaro, quando mais de 13.200 km² foram derrubados, o resultado atual chega a menos de um quarto daquele volume.
O climatologista Carlos Nobre, da Universidade de São Paulo, descreveu o resultado como um dos pontos mais baixos de desmatamento na história recente da floresta, considerando que o corte em grande escala na Amazônia se intensificou a partir da década de 1970, durante o regime militar, período para o qual não existem dados anuais comparáveis como os do Prodes. O próprio Inpe estima que, entre 1978 e 1988, antes do início do monitoramento contínuo por satélite, a média de área desmatada por ano girava em torno de 21.130 km², quase sete vezes a taxa registrada agora.
O Cerrado também bate recorde
O Cerrado, segundo bioma mais desmatado do país, repetiu o padrão de queda. A área desmatada somou 5.516,69 km² no mesmo período, uma redução de 23,7% frente aos 7.235 km² do ciclo anterior e o menor valor desde que o Prodes passou a monitorar o bioma, em 2001. Maranhão liderou a lista de estados, com 1.718,59 km² (31,2% do total), seguido por Tocantins (1.263,06 km², 22,9%) e Piauí (625,24 km², 11,3%). Completam a lista Bahia (489,75 km²), Minas Gerais (467,34 km²), Mato Grosso (454,52 km²), Goiás (210,37 km²) e Mato Grosso do Sul (208,93 km²), todos bem abaixo do volume concentrado nos três estados líderes.
Um levantamento do MapBiomas, divulgado dias antes, em 14 de outubro, ajuda a entender a escala do problema de fundo: entre 1985 e 2025, a Amazônia perdeu 54,7 milhões de hectares de vegetação nativa, enquanto a área agrícola na região cresceu 440% no mesmo intervalo, chegando a 65,3 milhões de hectares, dos quais 50,8 milhões são hoje pasto.
Por que a queda aconteceu agora
O ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, atribuiu o resultado a decisões de política pública orientadas por dados e à cooperação entre governos federal, estaduais e municipais, e não a um episódio isolado ou a sorte. Ele também apontou uma diferença estrutural entre os dois biomas: a Amazônia tem uma parcela grande de terras públicas, o que facilita a fiscalização direta, enquanto o Cerrado concentra propriedades privadas onde a legislação permite corte de vegetação sob certas condições.
Segundo o ministro, a estratégia do governo passa por direcionar a expansão da agropecuária para áreas já desmatadas e apertar as regras estaduais de autorização de corte, levando em conta a presença de espécies ameaçadas, áreas de recarga de aquíferos e terrenos com relevo mais frágil. A divulgação dos dados ocorreu durante o segundo turno das eleições presidenciais, em que o tema ambiental apareceu como um dos pontos de disputa entre as candidaturas.
Vale lembrar que o Cerrado já havia perdido 13,9 milhões de hectares de vegetação nativa nas margens de rios entre 1985 e 2025, segundo dados do MapBiomas que publiquei aqui há poucos dias. Os dois levantamentos olham para recortes diferentes do mesmo bioma, mas apontam na mesma direção: a pressão sobre a vegetação continua alta mesmo quando a taxa anual de desmatamento cai.
O novo número chega quase um ano depois de o Brasil sediar a COP30, a conferência do clima da ONU, em Belém, no Pará, em novembro de 2025. A escolha de uma cidade amazônica para a sede do evento colocou o destino da floresta no centro do debate internacional sobre aquecimento global, e deu ao governo brasileiro um compromisso simbólico de mostrar resultados concretos na redução do desmatamento nos ciclos seguintes. Pará, justamente o estado-sede da conferência, segue como o que mais desmata no bioma amazônico, ainda que também tenha registrado queda frente ao ano anterior.
Perguntas frequentes
O que é o Prodes?
O Prodes é o sistema do Inpe que mede, por satélite, o corte raso da vegetação nativa na Amazônia e no Cerrado a cada ciclo anual, entre agosto e julho. Seus números servem de referência oficial para o governo brasileiro e para acordos internacionais sobre clima.
O resultado significa que a Amazônia está livre de risco?
Não. A queda na taxa de desmatamento é a menor da série histórica, mas o bioma ainda perdeu mais de 3 mil km² de vegetação nativa em um único ciclo, e dados do MapBiomas mostram que a pressão da agropecuária sobre áreas já desmatadas continua crescendo.
Por que a Amazônia e o Cerrado tiveram resultados diferentes?
Segundo o Ministério do Meio Ambiente, a diferença vem da estrutura de posse da terra: a Amazônia tem mais área pública, onde a fiscalização federal age de forma mais direta, enquanto o Cerrado tem mais propriedades privadas, onde a lei permite desmatamento legal sob certas regras.

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